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Vontade emergencial

  • 6 de dez. de 2015
  • 3 min de leitura

Por Cristovam Buarque

(*) Quatro grandes tragédias sociais afetam os países ao longo de suas histórias: guerras, recessão, desemprego e inflação. Raramente elas coincidem. Porque as guerras destroem e matam, mas criam empregos e ocupam os jovens nos campos de batalha; em pequenas taxas, a inflação, em geral, dinamiza a economia e cria emprego. Por isso, é rara a coincidência das quatro tragédias, como a que atravessamos no Brasil. Estamos em guerra interna, com mais de 50 mil mortos por ano, vítimas de assassinatos diretos ou balas perdidas. E quase o mesmo número de mortos por acidentes de trânsito. Número raramente visto mesmo em países que enfrentam guerras tradicionais, externa ou civil. As cidades estão tomadas por bandos, e as pessoas, obrigadas a viver em casas que parecem fortalezas, autos blindados, só usarem serviços dentro de shopping centers, e os que usam ônibus obrigados a circular nas cidades sempre sob risco de assaltos. Nossa inflação chegou aos dois dígitos, já começando a desagregar o tecido social, provocando retrocesso rápido nos benefícios de programas de proteção social e ameaçando sair do controle, até mesmo pela paralisia dos poderes e a falta de vontade da população para fazer os ajustes necessários. Prova disso são a falta de planos sérios de ajustes e a dificuldade em aprovar as mais simples propostas de governo. As lutas corporativas por constantes reajustes de salários ou de preços fora de controle impedem a luta contra a inflação. Assiste-se até mesmo a relaxamento das regras de responsabilidade fiscal. A recessão é decorrente de sucessivos erros dos últimos governos, sobretudo por caírem na demagogia de insuflarem o consumo sem perceber a necessidade de poupança, por demagogia de olhar para o voto na eleição seguinte e não para os interesses nacionais. Provocaram com isso os alarmantes deficits fiscais, por demorarem tanto a entender que, daqui para a frente, a infraestrutura é o resultado da cooperação entre capital privado, inclusive externo, e o setor público. Uma das causas da interrupção do crescimento está na visão que confunde o interesse do partido com o interesse do governo e deste com o interesse do público, e ainda mais o interesse púbico com o poder estatal. Mas o que mais assusta hoje é o nível de desemprego. O número de desempregados que cresce a cada dia provoca sofrimento muito maior sobre as famílias do que mesmo a perda de renda pela recessão ou pela carestia da inflação. As últimas perdas são socializadas entre todos, embora com diferentes graus, mas o efeito do desemprego é concentrado no desempregado e seus dependentes. Para o desempregado, a inflação é de 100%, sem falar do custo psicológico e social de toda a família por causa da perda do emprego e do salário. Eles são os maiores sofredores com as crises. Todos esses problemas criaram e agora decorrem de duas falhas fundamentais na política brasileira: a falta de credibilidade nos dirigentes e a falta de base educacional no conjunto de todos os brasileiros. A recuperação da credibilidade e a revolução educacional vão exigir longo tempo para permitirem ao Brasil sair da crise. Mas não podemos esperar para enfrentar o problema do desemprego. Por isso, a presidente da República, mesmo sem a necessária credibilidade, deve convocar as forças políticas, também sem credibilidade, para, juntos, em esforço nacional, enfrentarmos o problema do desemprego, que destrói a vida de milhões de brasileiros. Como se estivéssemos em guerra, a sociedade precisa ser convocada e envolvida na luta contra o desemprego, com medidas políticas, sociais e até de solidariedade. Para isso, a presidente deveria constituir um conselho emergencial para o emprego, com seus ministros, os líderes partidários inclusive da oposição, os dirigentes das centrais sindicais, de trabalhadores e empresários, para juntos formularem propostas que tragam toda a sociedade e enfrentarmos juntos o problema, esta guerra, independente das crises que atravessamos. Sem esquecer os problemas que nos dividem, como impeachment e prioridades de longo prazo, temos de definir linhas de ação para um plano emergencial de empregabilidade. Os caminhos técnicos são conhecidos, os recursos necessários existem, desde que se aceite orientá-los na direção da emergência. Basta vontade comum nacional. Difícil a longo prazo, mas necessária na emergência e possível no compromisso que devemos ter de imediato com nossos compatriotas que sofrem a tragédia do desemprego. (*) Cristovam Buarque é Professor Emérito da UnB e Senador pelo PDT-DF.


 
 
 

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