Thomas e as circunstâncias
- 28 de nov. de 2015
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Por Elton Simões (*) Caro Thomas, Dá para contar com os dedos de uma das mãos o número de vezes em que nos encontramos pessoalmente. Culpa exclusivamente minha, eu sei. Quando você nasceu, eu já morava fora do país. Nos anos seguintes, as prioridades, acontecimentos e responsabilidades da vida me levaram a perder a oportunidade de conviver com você.
Planejava estar presente em seu Bar-Mitzvá para tentar mitigar esta minha negligência. Infelizmente, as circunstâncias da vida, mais uma vez, impediram minha presença. Desculpa, eu sei, que explica pouco e em nada justifica minha ausência.
A vida é assim. Cheia de imprevistos, dúvidas e encruzilhadas. Oferece a cada um a oportunidade de escolher adversários e inimigos. E dá, sem que seja necessário escolher, os amigos.
Foi assim que nasceu minha amizade com seu pai. E é assim, agora varias décadas mais tarde, que continuamos amigos. Amizade forte, portanto, que resistiu ao tempo, distância e diferenças.
Não sou religioso, nem divido com você a fé judaica. O pouco que sei sobre Bar-Mitzvá me foi ensinado pelo seu pai, décadas atrás, quando tínhamos quase a sua idade. Por isso mesmo, sei da importância desta data.
Provavelmente, quando finalmente estas palavras lhe tiverem chegado, a cerimonia já estará concluída. Você já terá colocado os Tefilin, e lido a Torá. Você já será adulto. Já terá idade para responder pelos seus atos. Será orientado pela sua própria consciência e responsável pelos resultados das decisões que vier a tomar.
Fico aqui imaginando o como deve ser difícil passar para a idade adulta nestes tempos de circunstâncias estranhas. Conhecendo seu pai, sei que ele lhe transmitiu bons valores. Sei que você sabe distinguir o certo do errado.
Nas circunstâncias atuais, entretanto, talvez estes valores não sejam necessariamente coisas que tornarão sua vida mais fácil. Ética, honestidade, e trabalho, às vezes, podem ser pesos ou limitações quando confrontados com as realidades das circunstâncias nestes tempos em que a flexibilidade moral por vezes parece imperar.
Caberá, portanto, exclusivamente a você, agora adulto, a preservação dos valores que sua família lhe transmitiu, apesar dos desafios que a vida te apresentará. A todos nós, fica reservado apenas o desejo de que você possa, apesar das dificuldades, dos dilemas, das tentações e até da falta de reconhecimento, preservar estes valores e transmiti-los a seus descendentes.
Não vai ser fácil, mas confio que você conseguirá. Você será, estou certo, sempre capaz de conviver harmoniosamente neste mar de circunstâncias conflituosas e confusas.
Que você use sempre como guia os valores que lhe foram transmitidos. Que você sempre ouça com clareza a voz da sua alma.
Abraços,
Elton
(*) Elton Simões, o autor, mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria). E-mail: esimoes@uvic.ca




















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