Piratininga foi premiada com o livro “Boca do Sertão - A História de Piratininga na Marcha do Café” escrito por Luis Paulo Cesari Domingues, lançado já há alguns meses e que registra fatos históricos, pitorescos e lendas que figuraram na vida daqueles que viveram no pequeno povoado dos “Inocentes”. Um presente para a cidade em termos históricos, pois foi contemplado pelo Programa de Incentivo à Cultura e patrocinado pela Duratex. Uma pena pelo número reduzido de tiragem e há fila por quem quer ter acesso ao conteúdo e só mesmo emprestando de um amigo ou de quem já fez a leitura, ou no mínimo por um exemplar que certamente está em nossa biblioteca municipal ou na Secretaria da Educação, ou Museu Histórico. “Há cinco anos eu faço a pesquisa histórica e anoto depoimentos de antigos moradores. Eu fazia trilha de bicicleta e fui conhecendo as propriedades rurais. Pesquisei também a história da cidade. Inscrevi no programa e fui contemplado. Fomos buscar um patrocinador que terá desconto em impostos.”

Além do rico conteúdo, resultado de uma pesquisa rigorosa feita por Claudia Leonor Guedes de Azevedo, a obra, com mais de 150 páginas, traz fotos incríveis, assinadas pelo consagrado Calil Neto, como a imagem em destaque, tirada em estrada rural, tendo as luzes da cidade de Piratininga ao fundo
“No início do século XX, ‘Boca do Sertão’ era a última estação ferroviária da linha, independente da empresa. Era o lugar para onde iam as pessoas que queriam enriquecer. Imigrantes, fazendeiros e colonos procuravam essas localidades onde se pagavam melhor. Eram lavouras de café que estavam abrindo.”
Muitas cidades da região foram “Boca do Sertão”, conforme afirma Luiz Paulo Domingues. “Quero fazer uma série. Estou trabalhando para isso. Fiz primeiro Piratininga porque sempre gostei de lá e tenho negócios na cidade. Tenho o Museu do Café e outros projetos. Quero fazer Agudos, São Manuel, Lençóis Paulista e Botucatu.”
Na opinião dele, o livro pode despertar os interessados em ajudar. “Precisa de estrutura. Tem povoados, vilas, fazendas antigas com igrejas belíssimas, abandonadas. Estamos começando a estudar um roteiro que sai do Museu do Café e vai para alguns desses lugares. Eu não tenho capital para investir. O certo é que a região tem potencial para isso.”
A obra é um ‘passeio’ por vários fatos históricos e ainda privilegia alguns antigos moradores que estão vivos e lembram de fatos que muitos dos atuais habitantes nem sabem.
Café e toda vida no campo marcam a cidade de Piratininga
Poucos sabem o significado da palavra Piratininga. Significa peixe a secar em tupi-guarani, nome não escolhido pelo significado, mas sim porque Adolfo Pinto queria homenagear a cidade de São Paulo, entendendo que a nova localidade apresentaria um desenvolvimento fora do comum, por ser “Boca do Sertão”, ponta da linha da ferrovia e centro abastecedor de uma enorme área que passaria a produzir café. Foi ele quem concebeu o desenho urbano triangular, formado pelas ruas principais do centro da cidade - para reproduzir parte do Centro de São Paulo - e quem criou o abecedário das estações da Companhia Paulista de Estrada de Ferro (Alba, Brasília, Cabrália, Duartina, Esmeralda, Fernão Dias, Gália e Garça e assim por diante).
A história de Piratininga é marcada de maneira profunda pela abundante zona rural e pela vida camponesa, com extensas áreas recheadas de belezas naturais e raridades arquitetônicas antigas, muitas delas do início do século XX. Pouco os proprietários rurais, colônos e mesmo munícipes dáo importância a edifícios escondidos no meio do sertão, espalhados por todas as áreas rurais. Parte dessas construções adormece no meio das matas, dos pastos e das plantações, e outras encontram-se ainda habitadas por agricultores e pecuaristas. O prefeito Sandro Bola não se importa com o aspecto histórico, conforme demonstra e ainda perderemos nossa verdadeira história, na contra-mão de que povo sem passado não vive o presente e não planeja o futuro.
Em 1921 Piratininga era maior e contava com uma população total de 30 mil habitantes, espalhados por sua sede, colônias de fazendas e povoações, compreendida também os atuais municípios de Cabrália Paulista, Duartina, Lucianópolis e Gália.
O livro destaca a chegada do café, através dos desbravadores. A era das plantações em larga escala começou com a família Rodrigues Alves, que adquiriu 10 mil alqueires de terras que foram chamadas de Fazenda Veado e lá foi plantado o café inicialmente para consumo próprio e posteriormente, com o cultivo entre vizinhos, porém sua a renda não chegando nem perto das grandes fortunas que iriam surgir no futuro.
O impulso seguinte partiu das negociações com a ferrovia da Companhia Paulista, para que a linha que chegara a Agudos em 1903 avançasse até as cercanias do pequeno povoado dos Inocentes. A Fazenda Veado, hoje chamada de São Pedro, foi a grande responsável pela fundação de Piratininga.
Para produzir café em larga escala, era preciso dispor de transporte em larga escala. Coronel Virgílio Rodrigues Alves doou 15 alqueires contíguos à fazenda para a construção da vila que iria receber a estação da estrada de ferro Companhia Paulista, a segunda a partir de Piratininga, depois batizada de Brasília Paulista (sua fazenda era a hoje Fazenda Laranja Azeda, de propriedade de Antônio Sérgio de Almeida Campos Jr.).
Coronel Virgílio Rodrigues Alves deve ser inserido como um dos mais importantes de nossa história, pois por seu intermédio é que vieram imigrantes para trabalhar na lavoura, segmento que marcou o progresso da cidade, até que outras atividades começassem a surgir, como o comércio, por exemplo e muito por conta da chegada dos árabes à cidade. Do comércio às máquinas de beneficiamento de café, algodão, milho e arroz um pulo, e foi quando entraram duas famílias na história, de alta relevância, os Farha e os Maluf. (*) Renato cardoso, o autor, é jornalista, publicitário e bacharel em direito.